Movimento Gay Leões do Norte

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Terra Blog

Categoria: COMENTÁRIOS DA PARADA

08.09.06

COMENTÁRIOS DA PARADA

Caro Rafael

Concordo com sua opinião mas me permita fazer alguns comentários, não somente para justificar algumas falhas e acertos. Mas se ter um histórico do que é a Parada.

A organização dessa Parada, em Recife, é formada por uns 8 grupos. Você participa desde as primeiras, no 13 de maio, e a que nós organizamos, praticamente sozinhos foram de 2002 até 2004 com os temas: Homossexuais, Mulheres e Homens: todos com direitos; Discriminação agride. Eu não e em 2004, Homossexualidade, um assunto bem familiar – o que foi premiado no Festival de Gramado pela excelente propaganda na televisão pelo título e o clip belíssimo. Somente em 2004 tivemos apoio do Ministério da Saúde para confecção de material, camisas, trio e Prefeitura do Recife, mas com outdoor em 2002 e 2003 e da Metrópole no clip de TV nos mesmos anos.

A partir de 2005 vários grupos fazem parte da organização e desde então o Leões participa como os demais, porém sem ser coordenação.

Na primeira Parada ninguém queria assumir a direção da Parada porque achava que seria um fracasso e naquela época a maioria concordou em chamar a drag para apresentar, o que foi, em minha opinião, desagradável o comportamento da drag. Mas fizemos um protesto contra os crimes cometidos contra homossexuais e acho que você lembra além do Prefeito do Recife fazer a abertura oficial e nesse mesmo dia sancionou a Lei 16.780/02

No segundo escolhemos o tema, de acordo com a nossa realidade e foi interessante porque despertou uma discussão nas salas de aula em escolas e faculdades, que participávamos porque provocava a discussão da agressão sem hematoma físico. O Governo do Estado somente mandou um representante no ano de 2004 mas mesmo assim não quis falar. Demos destaque ao fato de o primeiro homossexual receber pensão, em Recife, sem precisar recorrer a Justiça e provar seu relacionamento com seu companheiro que era funcionário público municipal do Recife. Lei aprovada na Câmara Municipal do Recife em 2001.

Na terceira discutimos com uma agência de publicidade (doação de um amigo pessoal), o que também proporcionou a discussão dentro da família. Entre a divulgação do tema até o final de ano estivemos em várias escolas e faculdades discutindo o tema além de debates com religiosos na TVU e rádios sobre o tema, que provocou ira nas igrejas evangélicas e alguns setores católicos.

Na quarta, em 2005 vieram vários grupos. A Parada estava mais ou menos consolidada, em Recife. A briga pela direção dela foi maior que a visibilidade. O tema foi o igual a Sampa. Perdeu-se a discussão local. É claro que temos que estar afinados com o movimento nacional, mas perdemos, nessa parada a característica da realidade local, que chama mais a atenção e provoca nas pessoas a sua criatividade e os debates que se desemvolve durante todo o ano em salas de aula.

O deslocamento para levar material, ir às rádios, imprensa e etc requer tempo e dinheiro de passagem. Não há. Militância é militância, há os sacrifícios e sacrifícios tira a gente do lazer, família, amigos, namorado. Problemas com as falações em trios. Esse é difícil de controlar. E nas duas últimas que estive à frente um dos empresários foi impedido em duas paradas. Se na Parada você tem 10 trios, no ato do Mustang e Igreja Cristo Vive conseguimos um carro de som, cedido, depois outro pago com nossa cota e por último um som emprestado que levamos e usamos a eletricidade do Pit.

Pegar num microfone e falar, não bonito mas o preciso e necessário. Quase ninguém. Participação de militantes nesses eventos. Poucos. Não há imprensa, não tem música, não há trio fechando a avenida e gente “fechando na rua”

Acho que para realizar um evento que preencha as lacunas de visibilidade necessita que superemos todos esses problemas. Espero que os grupos descubram a diferença entre o resultado de um evento e a organização da mesma é saber superar as dificuldades no percurso, assumir seu papel de organização e que a quantidade não qualifica a reivindicação, como você observou em sua impressão.

Acho que o representante que você ouviu no trio, foi no da Metrópole. Falei pouco ou quase nada. Tinha que voltar ao nosso Trio, o quinto, e paramos no Mustang, mais uma vez e falei por uns 20 minutos ou mais. Lembrando não somente o ato que fizemos. Mas também a importância de nós aprendermos a nos respeitar e deixar de ser cifras para empresários homofóbicos, ou qualquer um que não tenha respeito a nossa sexualidade. Lembrar que também somos vítimas dos conceitos religiosos que jogam nosso espírito no “fogo do inferno” e nossa carne ao açougueiro com suas mais requintadas formas de talhar.

Os candidatos, esses estariam lá com certeza. Alguns financiaram trios elétricos que vieram mascarados de casa tal e de fulano de tal. Os mesmos que durante o ano todo não aparece em nenhuma reunião, ato, protesto, malhação do judas (ano passado contra Severino Cavalcanti, esse ano cotra a proibição de doação de sangue de homossexuais) tais como o Mustang ou Igreja. Não interessa a eles. Mais interessante, para eles, são “os boy” mostrando seus corpos como se aquilo fosse a nossa fonte de vida, alvo de desejo, grito de respeito, principal reivindicação... Tinha alguns que tem compromisso. Mas pouco. Na Folha de Pernambuco, de sábado dia 2, saiu a porcentagem que falei a jornalista, 95% estavam pra pedir voto.

Acho que falei muito... rrsrsrsr, mas tinha esquecido uma coisa. No posto Select tinha um grupo de homossexuais e a brincadeira deles era chamar um de seus colegas de “aidético, aidético, aidético...” num corinho e pararam quando falei que aquilo merecia um processo. Em Caruaru ameacei denunciar um “empresário da noite que carregava bandeira gay” por causa desse mesmo comentário acerca de um dos meninos de Caruaru que estava participando da organização da Parada do Agreste porque não se conformava em não ter sido “eleito o porta-voz da Parada do Agreste”. Parou o comentário, mas alugou um bar, na avenida onde passaria a Parada para vender lugares e as pessoas virem de camarote “os gays e lésbicas”. Se um empresário, que se diz levantar a bandeira age dessa forma, que tipos de clientes formam seu comércio, que tipo de comentários circula em sua casa?. Isso em Caruaru, imagina em Recife que a vaidade é enorme e o evento tornou-se, para muitos, passarela para a “grife”.

Acho que to escrevendo muito mas vou terminar. Quarta-feira 13 (a data 13 foi coincidência, o que poderíamos realizar para haver tempo de fazer um material com as propostas antes das eleições, pós-debate), haverá um debate com os três candidatos ao governo de Pernambuco. Mendonça às 19h, Eduardo às 20h e Humberto às 21h.. Na Metrópole.

E não lamente ter essa impressão.  Ela é importante para a leitura dos que fazem grupos, participam do movimento organizado e correção dos eventos

Um abraço. Weligton  Medeiros
  • criado por  Leões do Norte criado por Leões do Norte
  • Postado em 18:35:16

COMENTÁRIOS DA PARADA

Foto publicada no fotoblog de Rafael

Peço licenca ao fotologger que publicou esta linda foto. Não consegui tirar nenhuma foto da Parada, mas adorei esta foto e ela expressa tudo o que eu estou sentindo.

Tenho acompanhado as paradas da diversidade do Recife desde o começo, onde aquelas paradas "não-oficiais" aconteciam no Parque 13 de Maio, com poucas pessoas.

Este ano não foi diferente. A crescente aceitação da homossexualidade pela sociedade vem trazendo cada vez mais participantes, e a cada ano que passa, o evento vem tomando grandes proporções.

Muita gente vai querer me cruxificar por estar abrindo essa discussão, mas é fato e eu não tomei essa impressão da Parada deste ano sozinho.

Não posso deixar de elogiar o trabalho da Secretaria de Saúde; os participantes tiveram fácil acesso a distribuição de camisinhas, gel lubrificante e orientação. Ponto positivo.

Mas a única emoção que eu realmente pude ter na Parada, foi ter sacudido a gigantesca bandeira do arco-íris no carro abre-alas da Parada, que tomava parte da avenida. Foi muito bom ter passado por debaixo da bandeira, onde muitos ativistas pulavam e gritavam pelos nossos direitos. Também tive o orgulho de carregar uma pequena bandeira durante todo o percurso. Mas foi só isso.

Primeiro: a Parada saiu muito tarde. Oito da noite, e os carros ainda estavam no começo da avenida. A hora do rush, onde a maioria da população que ali circulava, já estavam em suas casas. Percebia-se apenas os participantes tomando conta das ruas. Não havia PARA QUEM protestar; poucos espectadores estavam lá para mostrarmos que não comparecemos apenas para dar beijo de boca na rua, criando a doce ilusão que não estávamos sendo vítimas do preconceito naquele momento, mas para afirmar que somos cidadãos e também queremos defender nossos direitos, a fim de criar uma sociedade mais justa e equilibrada.

Segundo: Para onde foi o objetivo da Parada? Tudo o que se viu foram trios elétricos; em alguns, só se ouvia música; em outros, frases do tipo "Vamos beijar na boca!", "Aqui só estão as finas, as ricas, as bonitas..." (tsc tsc tsc), em outros, apenas uma gritaria sem fim pelos garotos musculosos dançando sensualmente. Apenas um representante do grupo Leões do Norte proferiu algumas poucas (muito poucas, poucas mesmo) palavras em um breve discurso, que não acrescentou em nada ao que nós já sabíamos.

Terceiro: Víamos ali, vários candidatos aproveitando a oportunidade para angariar votos, onde nomes de políticos que nunca lutaram por essa causa associando seus nomes a bandeiras multicoloridas. Vi um candidato que apenas divulgava o número, mas seu nome era quase imperceptível.

No geral, o que se viu foi um grande carnaval de rua, sem nenhum protesto, sem nenhuma pressão para os governantes para que se criem mais políticas públicas para a sociedade GLBTS. Será que o fundamento da Parada da Diversidade está sendo perdido?

Não estou aqui para dizer que a Parada deve ser algo sério e sisudo. A irreverência e a contagiante alegria dos participantes da parada são a marca registrada, mas não é só isso. O objetivo não é esse.

Costumo comparar as paradas aos movimentos feministas que ocorriam com grande força nos anos 80 e 90. Hoje em dia não se vê tantos protestos feministas nas ruas, pois as mulheres, a cada dia que passa, estão conquistando um lugar cada vez maior na sociedade, derrubando o machismo a cada dia, com pressões para que a situação melhore cada vez mais para elas. Isso sim, é resultado.

Gostaria que existissem eventos paralelos durante a semana em que aconteceria uma Parada Gay. Palestras, congressos, um festival de cinema GLBTS (pra onde foi o MixBrasil?), exposições, enfim... Sei que isso não é fácil, mas não acho impossível. Falta interesse dos patrocinadores para isso.

Lamento ter que escrever isso, mas é uma forma de gritar meu alerta aos organizadores do evento. Espero que, nas próximas edições, a Parada da Diversidade do Recife tenha um apoio maior do governo, uma ampla divulgação e participantes mais conscientes do seu papel a cada passo dado naquela avenida. Evoluir sempre, regredir jamais!

E tenho dito. Beijos a todos.

  • criado por  Leões do Norte criado por Leões do Norte
  • Postado em 18:32:58