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Em viagem pelo sertão para discutir a formação de grupos com homossexuais de Ourucuri e Trindade, e como estão os já formados em Tabira, Bezerros e Caruaru percebemos que a necessidade de discutir amplamente o tema é urgente. O segmento no interior, sempre soubemos, é carente de informações, conhecimento e de discussão com a sociedade sobre a homossexualidade.
Nós sabemos o que somos, gente com afetividade, capacidade de criar, amar, viver paixões, alegria e tristezas como qualquer pessoa. Mas e a sociedade? Ela nos vê dessa forma: é uma bicha; é gente boa né, mas tem esse defeito; ele é ótimo, mas...e por aí vai os conceitos e pré-conceitos sobre a gente. Afetividade? Isso é safadeza... Ah tá. Somos apenas um pedaço de carne que se contenta com um “homem na cama ou em pé mesmo”.
Não existimos afora aquilo que pensam sobre nós. Somos um depósito. Cada um que jogue seus entulhos, de preferência nos cantos para não atrapalhar a passagem...
Daí a importância de haver militância, mas militância para formar agentes de cidadania, discutir com a sociedade é urgente. Em cinco dias de viagem, discutindo com homossexuais dessas cidades, a gente vê como ainda não temos nada quando ouvimos de um companheiro homossexual seu relato de abandono pela família, os olhares de lado dentro da Igreja, o silêncio dos pais e irmãos dentro de casa, a mãe desejando que a morte tivesse levado esse miserável e não está passando por essa vergonha, o clamor dos evangélicos contra o demônio (esse demônio somos nós), a voz entrecortada entre uma palavra e outra, os olhos lacrimejando, o choro contido e engolido...e cada um de nós, na reunião, se sentindo humilhado, triste, um lixo... mas a vontade de mudar esse quadro sai uma palavra, formamos uma frase e continuamos nossa reunião... a gente muda, basta a gente se organizar, a gente pode, nós podemos!!! Mas a garganta da gente fica sufocada pela situação do companheiro homossexual. E isso não é só numa cidade, mas em todas em que passamos. Nós assistimos em cada fala a fita de um passado íntimo...
É assim no interior, longe da realidade da Capital, imprensa sobre a Parada, imprensa sobre o Debate com os candidatos, reuniões com estudantes e universitários.
Voltamos para casa depois de 1.658 km rodados, jantes empenadas, calotas imprestáveis, pneus mais gastos, namorado emburrado com a minha militância, pessoal no meu trabalho sufocado de tarefas, mas felizes por fazer várias reuniões, tristes por essa realidade e renovando a vontade de construir uma sociedade em que o respeito seja a principal moeda.
criado por Leões do Norte
19:09:08